Medo e Liberdade


Felipe M Passero, CFA, Gazeta do Povo, 19/04/2020

Duas grandes crises ameaçam o país hoje: uma, na saúde; outra, na economia. O foco de cada um recai naquela em que enxerga maior potencial de afetá-lo. A sociedade tem acompanhado a discussão, por vezes bastante acesa, de especialistas que se dividem, em linhas muito amplas, entre os que focam em uma e os que o fazem na outra. Essa cisão tem produzido mais atrito que resultados, mas um efeito claro é visível: tem causado uma sensação de medo, que toma conta dessa mesma sociedade.


O medo é um mal contagioso: leva as pessoas a imitar as decisões dos outros, sem analisar a realidade para tomar as suas próprias. Daniel Kahneman, um dos principais especialistas em economia comportamental e autor de Rápido e Devagar, fala das duas formas principais de tomada de decisão: uma baseia-se em escolhas intuitivas e emocionais; a outra se fundamenta na análise e no raciocínio. A primeira é adequada a tarefas mais simples: nelas, o erro é tolerado e não é necessária muita reflexão. A segunda, por sua vez, é mais própria para lidar com problemas mais complexos. O medo bloqueia a absorção de informações e expõe o indivíduo ao que se poderia chamar de “pensamento de manada” – ditado por uma opinião predominante entre a maioria. Esse efeito do medo dificulta a segunda forma de decisão.


Não por acaso, o medo é a ferramenta política preferida de agentes mal intencionados que desejam aumentar seu escopo de poder: assustado, o indivíduo não ouve as próprias ideias e se livra do “problema” de pensar aderindo ao discurso majoritário, que o liberta de ter de ser a nota ainda mais destoante em um concerto já de si pouco harmônico.


No Brasil, a opinião pública foi dividida ao meio. De um lado, temos o presidente da República fazendo coro a outros líderes latino-americanos – o Twitter deletou, em 26 de março, posts de Nicolás Maduro desdenhando a pandemia; três dias depois, foi a vez de Jair Bolsonaro. Daniel Ortega, ditador socialista da Nicarágua, foi além: impediu que médicos e profissionais de saúde utilizassem máscaras e luvas, e (se for dado crédito a um relato da mídia independente local) orientassem a população sobre a Covid-19 – além de convocar ato em apoio ao governo, copiando a negligência brasileira no episódio do dia 15 de março.


Em 2016, Barack Obama disse: “Quando nossos líderes expressam desdém por fatos, temos um problema”. Mesmo discordando de suas visões políticas, seu alerta é válido: “Na vida e na política, a ignorância não é uma virtude”. No mesmo discurso, ele destaca que na história americana a conquista das liberdades individuais e políticas veio com o Iluminismo – movimento intelectual predominante no século 18, que colocava as evidências científicas acima do obscurantismo e da superstição.


Do outro lado da guerra de narrativas estão todos os adversários do presidente, cada um com sua agenda particular. Entre eles há governadores que anseiam dar saltos maiores dentro da política. Também há empresas de comunicação que mantinham relações escusas com governos anteriores. No plano editorial, existe a percepção de que o jornalismo deixou de ser informativo para ser opinativo e prescritivo – e isso teve um efeito depletivo profundo na credibilidade dos veículos de notícias nas duas últimas décadas. Algumas dessas empresas de comunicação parecem querer retomar o espaço de antes.


Em suma: alguns (com foco na economia) usam o medo do desemprego e da perda de renda. Outros (com foco na saúde) usam o medo da doença ou da morte. O resultado é tribalismo, ódio e irracionalidade – fertilizantes do autoritarismo e da corrupção. Nos anos 1930, medo, miséria e fome foram igualmente efetivos para que se proliferassem regimes autoritários, como escreveu o prêmio Nobel de Economia Friedrich Hayek em O caminho da servidão. No livro, Hayek mostra como a liberdade é perdida aos poucos, à medida que a trinca acima listada deu espaço para que líderes muito atentos ao momento de então centralizassem a economia, trazendo o autoritarismo político na bagagem.


Neste ponto, o leitor pode estar se perguntando: qual a alternativa para o medo? Se existe uma coisa de que a humanidade mostrou ser capaz desde que saímos das cavernas, é a capacidade de se adaptar e resolver problemas. Devemos, pois, ter esperança de que sairemos dessas duas crises. A esperança nos dará a capacidade de encontrar soluções para os desafios que se apresentam. A esperança é o valor que protege a nossa liberdade. Mas ter esperança não é sinônimo de ser negligente: devemos tomar todas as providências necessárias para superar essa crise de saúde pública, protegendo-nos e a todos os nossos. Não pretendo explorar os aspectos de saúde aqui, pois não me cabe. Sou um profissional de finanças e um liberal. Mas, nesta condição, posso dar uma modesta contribuição, apresentando propostas para o lado econômico da crise.


Milton Friedman, um dos principais professores da Universidade de Chicago (alma mater do ministro Paulo Guedes), recomenda transferência de renda como a política social mais eficaz para ajudar quem está impossibilitado de trabalhar. A medida mais urgente é o repasse de recursos para autônomos e informais. Sem isso, tais trabalhadores ficam entre a fome certa e a doença incerta – e não vão respeitar nenhum tipo de quarentena.


Outra ação necessária é o aumento na concessão de crédito por meio da redução de compulsório bancário associado a linhas de capital de giro para manter a folha de pagamento das pequenas e médias empresas. Ausentes essas medidas, o desemprego pode se tornar uma catástrofe humanitária de proporções maiores que a própria pandemia, já que mortes por fome e outras causas naturais associadas à miséria se prolongariam por anos.


Propor solução apenas para o problema de saúde é tão equivocado quanto fazê-lo apenas para o problema da economia. Não existe atividade econômica sem vidas – e não existem vidas sem atividade econômica. Antagonizar vida e economia serve apenas aos interesses de quem usa o medo para fatiar a nossa liberdade.


Felipe Martins Passero, formado em Administração de Empresas, CFA Charterholder e sócio da InvesSmartXP, é associado do Instituto de Formação de Líderes de São Paulo.